Esta história não começa com uma guerra, nem com um herói. Começa com o vento. Não o vento que conhecemos, esse que sopra folhas e vira páginas. Mas aquele outro, mais antigo, que sopra lembranças.
Durante muitos ciclos, os eterí viveram suspensos entre o silêncio e o céu. As ilhas de Etérea, moldadas pelo Sopro, eram seu lar.
Etérea era um lugar onde nada tocava o chão. As ilhas não voavam. Pairavam, como suspiros petrificados de um tempo que jamais aprendera a cair. Os sinos nas portas marcavam a passagem do vento. Quando ele cessava, todos silenciavam por reverência.
Naquela tarde, as ilhas ressoavam suavemente com o canto das Correntes. Cristais pendiam de cipós vivos, filtrando a luz poente em tons dourados e azulados. A claridade aquecia a pele escura dos eterí e fazia sobressair, em quem já tinha feito o Primeiro Voo, as linhas brancas que percorriam rostos, ombros e braços em arcos e círculos delicados. Em Etérea, aquelas marcas eram tão familiares quanto as tranças, os mantos leves e os sinos nas portas.
As crianças terminavam seus cantos na Ilha dos Pequenos, enquanto as primeiras gôndolas de raízes trançadas se aproximavam para levá-las de volta às ilhas habitadas.
Entre elas, dois sopros vivos atravessavam as ilhotas correndo: uma menina de cabelos trançados e seu pai, de passos largos e olhos gastos pelo sol. A menina arrastava uma fita dourada que o vento erguia atrás dela.
Ao redor dos dois, Etérea seguia seu ritmo. Alguns eterí recolhiam folhas que vibravam em harmonia com o ar; outros ajustavam os véus de uma ponte entre ilhas distantes.
Ao passarem por um balcão comunitário, Yoral deixou duas peças de madeira que havia entalhado no sopro anterior. A mulher conferiu a marca nelas, guardou-as junto às demais contribuições e lhe entregou um pequeno cesto de selnara, uma planta comum na alimentação eterí.
Não havia moedas nem preços em Etérea. Cada família entregava à comunidade parte do que produzia e recebia dela aquilo de que precisava.
Tudo estava em paz. Os sinos soavam como deviam.
— Mais rápido! — gritou ela, sorrindo com as bochechas rubras.
— Se eu for mais rápido, os Nuaris vão pensar que sou um deles — respondeu ele, rindo com a voz grave e tranquila. Usava um manto branco com o símbolo das correntes que balançava enquanto corria. Os nuaris, de bico fino e penas púrpuras, eram as aves mais comuns de Etérea.
Pararam no topo de uma saliência rochosa, uma das tantas beiras onde o mundo parecia se encerrar. Dali, podiam ver o horizonte curvar-se sobre nuvens douradas. O sol, ao se deitar, tingia o céu de uma cor que só existia ali, entre o último instante de luz e o primeiro suspiro do Sopro do Silêncio.
A menina se sentou ao lado dele, com as pernas cruzadas e os olhos presos no horizonte. A luz do poente demorava-se na pele dela.
— O céu está tão quieto hoje... — disse ela, mexendo num fio solto das tranças.
— É Arion soprando devagar — respondeu o pai. — Quando ele canta assim, é porque está escutando algo importante.
Ela olhou para cima, tentando ouvir também. Mas só ouviu o próprio coração.
— O que é importante?
— O vento não apenas sopra, ele também leva palavras.
A menina encostou a cabeça no ombro dele.
— Quando eu era pequena... — começou, e depois sorriu ao perceber o que dissera — digo, mais pequena... eu achava que o vento era uma pessoa.
O pai riu baixo.
— Mas o vento é uma pessoa, minha pequena. O vento sou eu, você, a Nestira, sua mãe. Todos nós fazemos parte do vento. Nascemos do vento, e voltaremos a ser vento um sopro.
Ela ficou um instante em silêncio, os olhos passeando pelas nuvens abaixo. Estavam tão distantes, tão macias... pareciam convidar.
Então, apertou o braço dele e perguntou com o cuidado de quem ainda não entendia o tempo:
— Pai... o senhor... um sopro vai virar vento?
Ele demorou a responder.
— Um sopro, sim. — Olhou para o céu. — Todos nós somos sopros emprestados, filha. Nascemos do vento, caminhamos por um tempo... e depois retornamos à Corrente.
— Como a vovó?
— Como ela. E como tantos outros. Mas ninguém se perde, Jokara. Cada Sopro retorna ao ciclo.
— E ela está em Iliora?
— Acredito que sim — respondeu Yoral. — Dizem que os Sopros leves chegam lá quando já não precisam carregar o corpo.
Ela mordeu o lábio, pensativa.
— E o ciclo... nunca termina?
— O ciclo é o que mantém tudo. Ele passa por nós, mas não nos pertence. Esta história não é nossa, filha. Nós viemos e vamos, e os ventos continuarão aqui. O importante é permitirmos ao vento continuar o ciclo.
Jokara olhou para baixo. As nuvens pareciam uma segunda terra: uma que jamais poderia ser pisada. Depois olhou para cima, e então para o rosto de seu pai.
— Já houve alguém que não permitiu?
Ele hesitou.
— Meu pai me contou… que uma vez... uma ilha inteira caiu por conta do peso dela. Alguns Sopros se tornam tão pesados que nem mesmo os ventos os carregam.
— Como pode um Sopro ser pesado?
— Mentiras, mágoas, ego... tudo o que não deixamos ir. Há pessoas que caminham vazias, mas carregadas de si mesmas. Afaste-se delas, minha pequena. E quando sentir peso... busque o vento.
Ela não respondeu. Apenas se aproximou, deitando a cabeça sobre o peito do pai. Ele a envolveu com o braço, e juntos ficaram ali, sob o último raio solar, enquanto a brisa fria do Sopro do Silêncio se anunciava.
O vento passava entre os cabelos dela, e ela teve a impressão de ouvir um sussurro.
— Eu não ouço o sussurro deles... — disse Jokara, apertando os olhos.
O pai sorriu de lado.
— Eles não costumam sussurrar o óbvio. Meu pai dizia que as vozes dos ventos são misteriosas... mas sempre tocam quem já está em silêncio por dentro.
Os sinos ainda balançavam ao longe quando Jokara adormeceu no colo do pai.
Dez ciclos depois, aquela menina já era uma jovem. Jokara ainda caminhava até aquele mesmo platô na Ilha da Memória com a mesma cadência de antes. Suas tranças estavam presas em meias luas que balançavam com a brisa, e as vestes traziam o selo da Ilha dos Oradores, embora ela nunca houvesse aceitado, de fato, aquele chamado. Os pés descalços tocavam as espirais de raízes secas com familiaridade, e o vento, ali, era mais denso. A brisa cruzava os sinos suspensos, e o som que saía deles era mais oco que antes, como se tivesse esquecido parte da melodia.
Jokara se aproximou de um entalhe rústico numa pedra de orvalho, onde um nome, Yoral, fora marcado ciclos atrás por um Orador em silêncio. Não precisou tocá-lo. Bastava estar perto. Ajoelhou-se devagar, depositou um pedaço de selnara seca sobre a superfície gasta, e ficou ali, calada, por um bom tempo. Em uma das mãos, apertava o caderno dobrado, cujas folhas já haviam registrado, há muito, os contornos de um rosto que ela se recusava a desenhar de novo.
Lembrou-se do luto formal que não teve. Quando havia um corpo, os familiares envolviam-no em tecidos claros, deitavam-no num balão funerário e soltavam-no diante das Correntes. Depois caminhavam lentamente contra o vento enquanto o balão desaparecia entre as nuvens, devolvendo o corpo ao céu para que o Sopro seguisse sozinho até Iliora. De Yoral, porém, não restara corpo algum. Jokara não soltara balão, não caminhara contra a Corrente, não vira o céu levá-lo. Tivera apenas aquele entalhe rústico.
O céu estava limpo demais. Acima, a ilha de Erilan pairava com lentidão exagerada, como uma ave ferida tentando manter o voo. Jokara ergueu os olhos para ela por um momento, mas logo voltou o olhar para o chão, onde seus joelhos tocavam a terra áspera do platô. Passou a ponta dos dedos pelas marcas no solo, devagar.
— Não tenho muito pra dizer hoje — murmurou, com a voz quase arranhando. — Só que... tudo está bom demais. Bom demais, e mesmo assim... eu continuo me sentindo tão… incompleta.
Jokara sorriu, um sorriso torto e cansado. Era ali que os eterí agradeciam aos que vieram antes. Ali que falavam com os que já haviam devolvido seus Sopros. Ninguém dizia que os antepassados escutavam, mas também ninguém ousava dizer que não. Acreditava-se que cada sussurro sincero poderia ser carregado por Arion até onde quer que os Sopros repousassem.
— As ilhas estão firmes. Os Oradores cantam. As Correntes continuam. Mas o som… o som dos sinos não é mais o mesmo. Eles tocam, mas não me tocam mais. E todos parecem tão... ocupados em manter os rituais que esquecem de escutar o que eles dizem.
Fechou os olhos. A brisa mal lhe tocava a pele.
— O Primeiro Voo é na próxima espiral. A Nestira diz que estou pronta. O Efepar acha que eu devia ir com os olhos fechados só pra ver no que dá. — Ela riu, sem alegria, e passou as mãos pelas tranças. — E eu fico fingindo que não ligo. Mas eu ligo. Claro que ligo. Só que... cada vez que tento ser leve, parece que carrego mais vento do que consigo soprar.
Levantou os olhos lentamente, fixando o vazio entre os sinos que balançavam com esforço.
— Disseram que o senhor estaria lá... na ponte viva. Que ia me esperar do outro lado. — A voz falhou por um segundo. — Eu... acreditei nisso por muito tempo. E mesmo agora... mesmo depois de tudo... uma parte de mim ainda espera. Ainda ouve coisas que não estão lá.
Fez o gesto antigo: três dedos na testa, depois no peito. Um pedido de leveza que as mãos faziam sozinhas. Naquela manhã, não adiantou.
— Eu sei que o senhor não mentiu... o senhor acreditava. Mas eu... eu queria que fosse como me prometeu.
Não conseguiu segurar o choro. Deitou a cabeça contra o joelho e escondeu o rosto entre os braços. Era um choro miúdo, contido, e nenhum sino respondeu a ele. Então veio um toque seco na cabeça. Uma pedrinha. Depois outra, e mais outra. Caíram três, quatro, cinco, espaçadas, como se o céu tivesse resolvido chorar junto e só tivesse pedras para isso.
Jokara se levantou num ímpeto, enxugando os olhos com a manga da túnica. Com o coração disparado, olhou para cima, protegendo os olhos da luz. Acima dela, Erilan, a ilha dos Tecelões de Vento, ainda pairava no céu. Ao focar o olhar, notou que pequenas lascas se desprendiam da base. Algumas flutuavam brevemente, em desacordo com o fluxo do ar, e então caíam, densas, mais rápidas do que deviam.
Ela se abaixou e recolheu uma das pedras. Revirou-a entre os dedos. Pedras não caíam de Erilan.
O caminho de volta serpenteava por entre raízes que brotavam das margens das ilhas, contornando escarpas de musgo e passagens suspensas por arcos de madeira viva. Jokara caminhava sem pressa, a pedra ainda na mão. O vento vinha e ia, sem direção certa.
Foi então que notou. Um nuari voava baixo, muito abaixo do que era costumeiro. Suas penas reluziam num tom dourado opaco, e ele se debatia contra o ar, desorientado. Jokara parou. De dentro da mochila, tirou a flauta curva, entalhada à mão e embebida em mel de flor-aérea: um artefato dos antigos Tecelões, usado para atrair os nuaris em seus ciclos migratórios. Levou-a à boca e soprou suavemente, emitindo um som que lembrava o suspiro de Arion nos fins de tarde. O animal hesitou. Girou em espiral. Aproximou-se. E então pousou.
Com um gesto firme, Jokara se postou. Murmurou uma prece breve aos ventos, pediu perdão em nome do ciclo e ergueu a lâmina que trazia amarrada ao cinto. O corte foi limpo. O corpo caiu sereno. Ela se ajoelhou, fez o gesto da espiral com os dedos, e começou a trabalhar. A carne era leve, aromática, uma das preferidas em Etérea.
Enquanto separava a ave com precisão, ouviu algo. Um som breve, um estalo de madeira ou de galho. Seguiu a trilha, descendo por um pequeno desnível da ilha, até encontrar, entre arbustos silenciosos, um ninho. Três filhotes frágeis se aninhavam ali, com os olhos fechados e os bicos entreabertos, esperando por uma mãe que jamais voltaria. Jokara ficou parada. Parte dela quis colocar os filhotes nas mãos e levá-los consigo, mas sabia que isso seria ainda mais cruel. Deixou o ninho onde estava.
Com a carne cuidadosamente embrulhada num tecido branco, retornou pelas pontes até sua casa, situada na encosta da Ilha de Nivelia, onde viviam os cuidadores de raízes. A casa dos Amarëa era redonda, de três níveis, feita de madeira clara e tecido de seda vegetal entrelaçada, com sinos pendurados em cada batente. Antes de dormir, Mirel sempre verificava se pelo menos um deles ainda respondia ao vento; uma casa cujo sino não tocasse durante o Sopro do Silêncio era considerada fechada às Correntes. Uma varanda em espiral abria-se para o leste, onde o sol nascia, e no interior o cheiro de raiz aquecida e pétala seca perfumava o ar.
A mãe, Mirel, provavelmente estava supervisionando os círculos de escuta no Santuário de Helion. Nestira, como sempre às vésperas da Espiral da Luz, deveria estar no Salão dos Ecos, orando com os Oradores em silêncio, antes da procissão da corrente. Jokara atravessou a sala central, passou pelas escadas espiraladas e subiu até seu quarto.
Ali, tudo estava como deixara. Uma estante baixa sustentava frascos de névoa perfumada e algumas folhas de cristal usadas para registrar sonhos. Quando inclinadas diante da luz, palavras finas surgiam sob a superfície. Jokara não escrevia nelas havia muitos ciclos; seus sonhos tinham se tornado repetitivos demais para merecerem registro. Pousou o caderno sobre a mesa de raízes trançadas e voltou-se para a janela, onde um manto branco, agora amarelado pelo tempo, trazia o símbolo das Correntes bordado em linha prateada.
Jokara se aproximou, pegou o tecido com as duas mãos e o apertou contra o rosto. Fechou os olhos, buscando o cheiro antigo: uma mistura de orvalho e mel seco. O vento entrou pela janela. O cheiro não estava mais ali.
Deixou o manto cair de leve. Desceu. Cozinhou a carne do nuari em fogo de pedra, como aprendera com Mirel. Misturou ervas leves, raízes e um pouco de mel para dourar a superfície. O sabor era bom. Comeu sozinha, de pé, junto ao fogo.
Quando o sol terminou de mergulhar sob as ilhas, os sinos tocaram mais suavemente que de costume. O Sopro do Silêncio já havia começado, mas o sino da porta dos Amarëa ainda não soara uma única vez. Jokara abriu a janela e viu as velas acesas começarem a descer das casas, pequenas chamas sustentadas por mãos reverentes.
A Procissão do Sopro Brando estava prestes a começar.
Celebrado a cada três espirais, era um antigo rito onde os Oradores da Corrente percorriam a ilha em silêncio, entoando apenas em pensamento suas preces à Corrente dominante do ciclo. O corpo principal dos Oradores era responsável pelos ritos diurnos e escrituras, mas ao Sopro do Silêncio, a vigília cabia aos Oradores Noturnos. Estes monges do silêncio percorriam as passagens suspensas, patrulhando as ilhas para que os Arrancados, as almas que ainda circulavam, não perdessem o caminho de ascensão. O Sopro do Silêncio era um tempo de proteção, onde apenas os vigilantes tinham permissão para andar.
Lá fora, a luz branca se espalhava como um rio sereno, e as vestes dos Oradores flutuavam em ondas. Jokara reconheceu vizinhos de toda a encosta: um velho de ombros largos com os olhos marejados, uma mãe que caminhava com a filha adormecida nos braços, uma cuidadora da Ilha dos Jardins cujas mãos tremiam de emoção ou idade. Entre eles estava Yrisea, a mais velha dos Oradores de Nivelia, com os dedos sempre trêmulos, mas firmes no olhar. E, por fim, Nestira, com o rosto voltado ao céu e um semblante tão em paz que fazia Jokara se perguntar como duas irmãs podiam ser tão diferentes.
Jokara hesitou à sombra da porta, sentindo o cheiro morno do mel queimado se misturar ao da pedra esfriando. Lá fora, as velas já começavam a descer das casas em linhas suaves de luz branca, conduzidas pelas mãos de moradores em silêncio.
Ela nunca havia participado. O ritual era reservado àqueles que haviam completado o Primeiro Voo, e Jokara ainda não o fizera. Mesmo assim, não conseguiu ficar em casa.
Sem pensar muito, virou-se, abriu o armário e puxou com cuidado um dos mantos brancos bordados à mão por sua avó muitas espirais atrás. Era simples, com linhas em espiral nos punhos e uma pequena pena prateada costurada no peito. O tecido já estava um pouco amarelado nas bordas, mas ainda exalava o cheiro de flor-da-névoa. Jokara o vestiu com cuidado, amarrou as fitas nos ombros, e se dirigiu ao pequeno altar de oferendas, onde uma vela esquecida jazia, ainda com metade da cera. Acendeu-a com uma pedra de fogo lento e saiu.
A rua era um corredor estreito de madeira viva que se abria em espirais à medida que descia, ladeada por casas suspensas, tecidos leves e sinos pendurados nos batentes. As pessoas caminhavam devagar, todas vestidas de branco, carregando as velas à frente do corpo como se segurassem o próprio sopro. Ninguém falava. Apenas olhares se cruzavam por breves instantes.
A ancestral Yrisea, a Oradora mais velha de Nivelia, caminhava à frente do grupo, com os olhos fechados e os pés descalços. De sua boca começou a sair um som contínuo, sem palavras, quase sem melodia: um lamento antigo, sustentado numa única nota que subia e descia devagar, próximo do assobio do vento entre as raízes. Era uma prece sem nome, diferente dos cânticos formais que Jokara conhecia desde criança, como a melancólica "Livia Entoa" ou a solene "A Balada do Primeiro Sopro". Os pelos dos braços de Jokara se arrepiaram. Ela não saberia nomear o que aquele som fazia com ela.
O grupo atravessou a Ponte de Folhas, que os levou da zona habitada até a parte mais alta de Nivelia, onde o vento era mais forte e a vista dava para o vazio azul profundo. Jokara já estivera ali antes, mas nunca ao Sopro do Silêncio, e nunca entre tantas velas. Ao fundo, as ilhas distantes pareciam boiar sobre o horizonte, imóveis, como sentinelas adormecidas.
Todos pararam à beira do precipício, os Oradores formando um semicírculo. O canto cessou, e ninguém mais fez som algum. Cada pessoa segurou sua vela com ambas as mãos, inclinou o corpo em leve reverência, e se preparou.
Jokara olhou para a sua. A chama tremia.
Ela não sabia exatamente o que aquilo significava. Ninguém explicava. Diziam que as velas eram uma oferta de luz às Correntes. Que elas serviam como lembrete da impermanência. Outros diziam que representavam as almas leves, retornando ao ciclo. Mas para ela, naquele instante, a vela era só uma dúvida acesa.
Com um gesto hesitante, ergueu o braço. E, junto aos demais, lançou a vela ao vento.
As pequenas chamas subiram, dançando como sementes de luz em uma corrente suave. Por um momento, pairaram, sustentadas pelo ar. Depois, uma a uma, foram se apagando. Nenhuma caiu. Apenas sumiram, absorvidas pelo escuro, ou talvez aceitas.
Jokara acompanhou as pequenas luzes até a última desaparecer no escuro. Por alguns instantes, não houve nada além dos sinos distantes.
Então, em algum lugar acima, ouviu o toque seco de uma pedra contra outra.